Antes que o sono me leve, só queria ser ouvido
🌑 Entre a insônia e a solidão: a busca silenciosa por acolhimento
Reflexões sobre noites inquietas e o peso de sentir-se só
Não acredito que demorei tanto tempo para escrever sobre isso — especialmente depois de tantos outros textos, alguns dos quais nem me orgulho. Ainda assim, reconheço que tenho a capacidade de colocar em palavras o que sinto e vivencio com uma clareza que às vezes até me surpreende. Mas isso é assunto para outro momento.
Não entendo muito bem como funciona, mas sei que acontece sempre assim: quando a noite começa a cair, percebo o escurecer não só lá fora, mas dentro de mim. A mente sussurra que é hora de recolhimento, de preparar o corpo para o dia seguinte, de dormir. Mas algo dentro de mim diz que está faltando alguma coisa. Algo que precisa ser feito. Dito. Ou talvez apenas sentido ou lido. Surge uma sensação de incompletude, como se faltasse um “Gran Finale” no meu dia. Mesmo com o corpo cansado, os pensamentos fervilham.
Se eu não mando aquela mensagem, se não vejo aquele vídeo, se não busco alguma coisa que alivie o coração... falta algo. E meu coração apertado precisa sentir alguma coisa que acalme, algo que faça o dia valer. E quanto mais sofrido o dia foi, mais difícil é silenciar a mente.
Então, deito. Mas ela não para.
Respiro fundo, começo a relaxar. E, quando o sono está quase chegando, ele é interrompido por um pensamento:
“E se...?”
“Por que...?”
“E se eu fizer...?”
Essas frases surgem como ganchos. Às vezes me despertam antes do sono chegar; outras, depois. E junto com elas vem mais uma:
“Preciso dormir, mas não sei como.”
E um pensamento alimenta o outro. Como se a única forma de adormecer fosse descobrir o que está me incomodando. A tensão cresce. Os pensamentos disparam.
Rolo o feed do celular, escuto músicas tentando me acalmar, assisto algo baixinho — para não acordar ninguém. Mas ainda assim me culpo.
Posso atrapalhar o sono de alguém. E isso pesa. Principalmente se for alguém que valoriza demais o próprio sono, mas que não compreende o que é viver com a mente inquieta.
“É só deitar, o sono vem. Funciona comigo. Deve funcionar com os outros.”
E aí surge outra dor:
a culpa de não conseguir fazer o que parece tão simples.
E agora?
Eu sei que não deveria estar acordado, mas estou.
A angústia da insônia se soma à angústia da culpa.
Eu só queria algo que acalmasse meu coração, que dissesse:
“Vai passar. Você vai ficar bem.”
Mas na maioria das vezes, todo mundo já foi dormir.
E eu fico buscando alguma presença, alguma palavra que me conforte.
Às vezes algo simples:
“Obrigado por ter passado aqui.”
“Gostei da sua companhia hoje.”
E percebo, nesse instante, o tamanho da solidão de estar entre pessoas que não se conectam de verdade. Que fazem tudo no automático. Que não percebem quando alguém ao lado está quase gritando por dentro:
“Estou aqui. Me vê. Me ouve. Me toca.”
“Eu não consigo dormir. Minha mente está um caos. Preciso de companhia, não de julgamento.”
E quando o sono finalmente chega — como uma sombra suave cobrindo os olhos — ainda vem o peso:
Será que atrapalhei o sono de alguém para conseguir o meu?
No dia seguinte, o comentário clássico:
“Eu nem vi que horas você foi dormir...”
“Você tem que procurar um médico.”
E aí dói.
Não que o médico não ajude — mas nesse momento, o problema não é clínico. É humano.
E a pessoa que mais poderia estar ao seu lado acaba se retirando emocionalmente da cena.
Se o remédio não funciona, dizem:
“Tem que aumentar a dose.”
“Tem que tomar mais cedo.”
Quando começa a dar efeitos colaterais:
“Você não devia estar tomando isso por tanto tempo.”
“Esse médico está exagerando.”
Se tira o remédio, tudo volta como antes.
E ninguém enxerga o ciclo.
No fundo, esperam uma solução mágica para um problema que não querem enfrentar. Porque isso exigiria presença.
Preferem dizer que “cada um tem seus problemas”.
E eu sigo.
Carregando a culpa.
Porque, no fim, o sono sempre vem.
Mas na hora errada.
E com ele, mais uma culpa: a de não ter dormido no tempo certo.
💔 A parte mais dura?
Às vezes a dor vem de onde te mandaram buscar ajuda:
o consultório.
Ali você percebe que está lutando uma guerra silenciosa.
Que ninguém vê.
Que poucos realmente escutam.
Você se vê como um guerreiro cansado — solitário — tentando se manter de pé num mundo que espera força o tempo todo.
E mesmo assim, você se levanta. Porque alguém depende de você.
Mesmo que essa pessoa não entenda o peso que você carrega.
Mesmo que ela nunca vá saber o quanto você esteve perto de cair.
Você continua.
Não porque quer — mas porque precisa.
E mesmo que esteja quebrado por dentro, o mundo espera que você continue funcionando.
Espero que esse texto encontre quem precisa —
os que lutam calados, enquanto os outros dormem em paz.
“Se esse texto te tocou, deixe um comentário ou compartilhe com quem pode entender.”
Isso abre espaço para diálogo sem forçar.

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